Blog pelo aumento da indeterminação da matéria e pela genitalização do caráter.
Também é um espaço que permite às gatinhas psicodélicas encontrarem seu destino.
28.3.04 :::
Eis um texto do livro de Noções Básicas de Antroposofia de Rudolf Lanz. Fora alguns radicalismos (talvez até necessários no momento) do texto é bem interessante:
"A racionalização do trabalho deveria ter por objetivo libertar o homem da escravidão daquele, dando-lhe o tempo e as forças necessárias para dedicar-se a atividades superiores. Como seria bom se o homem, dono da máquina, usasse realmente o tempo poupado para tornar-se mais digno e mais consciente de suas tarefas, aspirando a realizar valores novos e elevados! Mas o que faz com o tempo economizado? Procura 'matá-lo'. Tomado pelo pânico de ficar a sós consigo mesmo, de ter de concentrar seu espírito em algo mais elevado, ele se refugia nos passatempos: rádio, revistas, baralho, tevê, leituras superficiais de livros 'cativantes', festas, narcóticos. Esquecer e fugir de si próprio, eis o lema e a razão de ser da indústria de passatempos, uma das maiores vergonhas da humanidade, que tem por única finalidade tornar o homem inconsciente ou semi-inconsciente, alienando-o de sua tarefa primordial. Temos aqui a técnica acoplada à inconsciência, triste exemplo da colaboração entre Árimã e Lúcifer.
Vejamos as mais recentes conquistas nesse domínio: a tevê, as revistas de histórias em quadrinhos (nem o esforço consciente de leitura é mais necessário), o nível da média dos filmes, as viagens frenéticas, os jogos de azar... uma geração inteira que se afunda na alienação de si mesma. E o aspecto mais diabólico é que as crianças são inundadas, desde o nascimento, pelo 'benefício' dessa indústria. Como é que uma geração de homens maduros e conscientes pode nascer de crianças viciadas desde o berço?
A propaganda, sob todas suas formas, constitui outro atentado contra a consciência; apela habilmente aos instintos menos elevados - cobiça, vaidade, egoísmo, sensualismo -, mas o faz de modo subreptício, dirigindo-se ao subconsciente, quando não trabalha traiçoeiramente com efeitos subliminares. Triste espetáculo numa hora em que o homem deveria estar cada vez mais lúcido e consciente em todos os seus pensamentos e decisões.
Devemos dizer o mesmo dos slogans políticos ou sociais, das ideologias, dos falsos fanatismos e de tudo o que fortalece o espírito gregário, a mentalidade puramente emocional de grupos e, por isso mesmo, semi-inconsciente. Todas essas nefastas influências luciféricas contribuem para a esquizofrenia do homem moderno, que é atraído pelos extremos do materialismo e da abstração, por um lado, e da embriaguez e da inconsciência de sua vida emotiva, por outro. Falta-lhe o ponto de apoio, do meio. Parece que o homem moderno prefere a justaposição incoerente e chocante dos dois extremos, em lugar de sua harmonização."
(pp. 71-72)
Lúcifer e Árimatã aparecem como imagens das forças emocionais e "lógico-técnicas", respectivamente, atualmente desvirtuadas, perdidas e viciadas (e não más em essência).
26.3.04 :::
Hoje que eu fui ouvir essa música pela primeira vez, na voz do Chico:
COPO VAZIO Gilberto Gil
1974
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar
É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar
É sempre bom lembrar
Guardar de cor
Que o ar vazio de um rosto sombrio
Está cheio de dor
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor
Que a dor ocupa a metade da verdade
A verdadeira natureza interior
Uma metade cheia, uma metade vazia
Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar
19.3.04 :::
Divertido dançar ao som de amendoim japonês sendo mastigado.
Hoje, voltando pra casa lá pelas 8 da manhã, sorrindo, via na rua centenas de pessoas indo no sentido contrário ao meu, ninguém me acompanhando, praticamente, com caras cabisbaixas. Aí pensei, que raio de democracia é essa que a maioria tá sempre errada? Continuei pensando e concluí que enquanto democracia for da maioria, ela vai estar sempre errada, mas aí já tinha ido longe demais.
Agora chove, apesar, além de vivermos um despotismo do engodo.
12.3.04 :::
Saí de casa para trocar a pilha do meu relógio de bolso.
Estava perto da Paulista e, ao invés de descer de novo pra casa, subi até ela e virei para a esquerda. No meio do caminho encontrei o monge Hare Krishna que frequenta a USP e até lembrou do Busílis, "não tenho dinheiro, estou indo passear no parque...". Cheguei no parque, o Trianon, pedacinhozinho de bosque com algumas árvores originais da Mata Atlântica. Descobri até que existe uma fonte de água potável pública ali, do lado da Avenida Paulista.
Sentado no parque, simplesmente sendo, quando de repente surge uma grande manada de concorrentes a Miss São Paulo 2004, estavam lá a Miss Hortolândia, Miss Pirassuninga, Miss Ribeirão Preto e mais umas cinquenta delas, com suas faixas, passando na minha frente e falando com seus típicos e diferentes sotaques paulistas de todos os cantos. Era o sinal de que estava na hora de partir, e saí do parque rindo.
Saí do parque e continuei na Paulista, indo para a esquerda, na mente o objetivo era chegar aos arcos coloridos de ali no fim, quando as ruas descem para o Pacaembu e ali, da beira da avenida eu vi no fundo a serra que naquele canto meio norte, meio oeste, se eu bem não me engano, delimitam a cidade, como eu poderia saber que dali era isso possível? Agora eu sei.
Resolvi voltar costeando a Paulista pelo lado esquerdo, por ruazinhas paralelas que hora ou outra acabavam e eu virava pra esquerda, indo pra mais longe, até chegar à Peixoto Gomide sem que eu planejasse, que invariavelmente, por fazer um ângulo de 90 graus nela mesma, me levou de volta pra avenida, exatamente do lado do vão do MASP, que me passara pela cabeça mas para onde eu não me direcionava intencionalmente. Do vão queria ver as avenidas indo ao longe, pro centro da cidade.
Mas ao me aproximar da beira do vão, onde tocavam (por pouco tempo) um berimbau, turistas (do interior ou mesmo da periferia da cidade) tiravam fotos, a chuva começou e o mendigo do local veio falar comigo, ou melhor, falar pra mim (sem ouvir nada). Me disse que meu futuro era grande e que quem tentasse me humilhar não conseguiria, que tentariam me humilhar e eu não podia me sentir humilhado. Perguntei quem me humilharia (pergunta errada, provavelmente), ele disse que ninguém me tocaria porque os espíritos me conhecem, inclusive o espírito de papai e mamãe, se me tocassem eu ficaria invocado, não pode tocar, senão invoca. Agradeci e esperei a chuva passar, enquanto os turistas tiravam fotos com os malabaristas que se despediam no local. A chuva melhorou, até vi o vão, as avenidas indo em vão, mas parti para casa.
Descendo, a chuva aumenta um pouco, em frente à padaria onde iria comprar um sorvete, do outro lado da rua, sai um homem de um bar, com uma caipirinha na mão e me diz, "o melhor chinelo é as havaianas!". Fica repetindo isso quando tento responder, rindo, que é melhor ainda quando se acha na praia (como no meu caso), mas ele não me ouve, e fala de novo, rindo, "o melhor chinelo é as havaianas, doutor da USP". Atravessei rindo, ele ria de lá, as pessoas riam ao redor, mas quem era o sujeito e como saberia ele onde eu estudo? Desci para casa, a chuva lavando a alma, cá estou, ouvindo Vinicius de Moraes:
A Um Passarinho
Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis
Deixa-te de histórias
Some-te daqui!
Uma formiga (formiga??? daquelas vermelhas ainda por cima?) acabou de me morder o pescoço!
11.3.04 :::
Ah, manjado, eu sei, mas os homens costumam ter mais ciúmes das mulheres que não podem (as que a cultura, a sociedade e a psicanálise não deixam) ter. (sic) As mulheres até costumam fazer o mesmo com os homens.
Jung disse que o núcleo de todo ciúme é a falta de amor, concordo!
1.3.04 :::
Hummm, aparição rápida pelas paragens.
Estou arrumando coisas no meu velho quarto e é incrível, fiquei brincando de mini-carrinhos, montando a cidadezinha, são carrinhos que eu não passo pra frente nunca, continuam sempre guardados num canto. Brincando de carrinho ao som de Piazzolla, isso eu não fazia na infância.
Depois comecei a dançar Chico Buarque na sala:
Tanto Mar
Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo pra mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
E achei as melhores e mais incríveis anotações de todos os tempos (credo, claro que não), do meu caderninho de anotações de viagem de 2001 (um ano antes do blog) pela Europa. A primeira anotação interessante é do dia 11 de Julho:
"Dia Negro da História de Amsterdã [nem vou explicar o que foi, mas sei que tem gente que sabe o que foi - não lembrava de ter anotado essa data] e agora um desenho feliz" [desenho de um smiley e ilusões de ótica frustradas]
14 de Julho em Paris (comemorações dos 212 anos da Revolução Francesa):
"11 horas
Viva as Francesas!!"
"Só pra não esquecer
Foda-se Paris"
E agora o único real texto do caderninho, algum dia em Brugge, Bélgica, lá pro fim da viagem, claramente depois de ter levado um fora de uma americana: (é o mais bizarro!)
"Fodam-se os americanos, fodam-se as americanas principalmente, agora ouvindo Americanos, do Caetano Veloso eu não sei o que penso, mas fodam-se os americanos, ou as americanas principalmente, porém... quem se fode sou eu, só eu. Um índio descerá de uma estrela estonteante. Verá que eu vi. Poema que eu fiz no banheiro, homenagem póstuma à Badu Nogueira, mesmo que ele não tenha morrido, foda-se ele:
Fodam-se as americanas
As americanas que se fodam
Fodam-se...
as americanas
Badu Nogueira
Circuladô de Fulo é vivo quem já me deu! [exclamação gorda, um triângulo em cima de uma bolota]
Eu não sei porque eu uso essa porcaria de exclamação [a mesma] aqui, se eu sempre usei !!! as normaizinhas. Porque eu não posso guiar!! Circuladô de Fulô! Ao deus ao tempo dará, que deus te guie porque eu não posso guiar!
Fodam-se as americanas de olhos azuis. Mas quem se fode sou eu ou quem não fode no final, hahaha!!!
Viva a exclamação chapada e o espanhol ¡Espanhol!.
[aqui aparece a palavra "Espanhol" entre exclamações gordinhas] Credo, odeio espanhol, a língua [ah, não é mais verdade]. Acho que o inglês é até falável [sic], mas os americanos, fodam-se todos, todas, que se fodam sozinhos, Fuck U.S.!!
Serpente, nem semte, que me envenenou, Senhora, e agora, me diga onde vou...
É o avesso de um sentimento, oceano sem mágoa, eu quero que chegue logo a 3° Margem do Rio, que é uma das melhores músicas que existem. Já falei de Cálice, ouvi outro dia, é 1000 vezes melhor do que eu achava, e eu já achava muito boa. Você pensa que eu tenho tudo, mas vazio me deixa.
Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser! Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim. Música chata [qual???]! Ei, Terceira Margem, solinho de tambor, eu sou da eira beira! Não quero mais escrever, fodam-se os americanos! TodAs!
Poeminha Patético como Eles: