Blog pelo aumento da indeterminação da matéria e pela genitalização do caráter.
Também é um espaço que permite às gatinhas psicodélicas encontrarem seu destino.
26.8.05 :::
Ando tendo sonhos estranhos, ultimamente, durante meus esporádicos momentos de sono. Achei por bem compartilhar um pouco dessas mensagens do inconsciente coletivo com vocês, queridos leitores.
Sonho 1 - Estava saindo de uma rave. Andava por uma estrada quando do alto de uma rocha avistei um cara totalmente fritando (como dizem na cena trance) (aliás, a expressão cena trance já não quer dizer que é tudo um teatro? enfim, de volta ao sonho). Então, tinha um cara fritando, mas não por qualquer droga habitual, mas sim com uma garrafa de água cristalina. Ele gritou pra mim, dizendo pra eu encontrar a cachoeira secreta do lugar e trazer um pouco da água de lá pra ele. Bem, eu e um amigo indefinido continuamos andando e me dei conta de que toda a rave e o lugar onde eu estava era dentro de uma enorme caverna. Procurando a saída, passei por um lugar da onde vinha um som de cachoeira. Obviamente, fui olhar, era necessário se agachar e passar por debaixo de uma pedra. No caminho, havia uma membrana de carne, que estourou ao toque. Atrás dessa membrana, tudo era diferente. Havia encontrado o "salão do Silêncio Eterno". Lá dentro era como se estivesse em outra dimensão, as cores eram intensas beirando o absurdo e flutuavam no ar. No meio dessa loucura visual, eu vi uma cena estranha, era um restaurante comum, com pessoas comuns comendo normalmente, mas eu me sentia como se estivesse recebendo uma revelação mística. E não tinha nenhuma cachoeira, enfim. Acabamos saindo de lá, e comentávamos sobre nossa incrível descoberta. Encontramos um TV ligada na MTV e a mesma cena do salão secreto estava num clipe do Santana! Bem, creio que tudo o que aprendemos em experiências místicas já estava ao nosso redor o tempo todo, não há absolutamente segredo algum no mundo, basta ter olhos pra ver.
Sonho 2 - Estava em um quarto conversando com meu pai. A conversa ia bem, de uma maneira até irreal, meu pai entendia minhas idéias. Estávamos os dois felizes com isso. Ele me perguntou o sentido da vida. Respondi, sem hesitação, que era continuar, através de sucessivas vidas, a tornar a energia que me anima cada vez mais livre. E, também, viver em harmonia com os princípios básicos da natureza, dessa forma, cada ação minha gera uma onda, uma marola no futuro de coisas boas.
Depois eu sonhei que era o Raul Seixas (aliás, viram a Vivi Seixas na Trip?). O sonho tem uma história longa, e no final o Raul acabava preso pela cintura em uma corrente e pendurado em um prédio por soldados alemães. Nessa situação ele compôs seus primeiros sucessos. Enfim, em outro momento, ele escrevia um poema, que versava sobre cascas de ovo como metáforas da condição humana encouraçada. Eu lembro só que um dos versos dizia algo assim: "Na tentativa de fugir do sofrimento, você se torna feito de sofrimento". Você vira um grande ovo de sofrimento isolado do mundo. Os reichianos que me entendam...
21.8.05 :::
Sexta feira eu fui no aniversário da Sassá no Sarajevo e encontrei o Marquito lá, aí ele falou que tava querendo ir embora, um pouco depois da hora que eu cheguei, bla bla bla, pra ele não ir embora, estavamos no último andar, onde tem um monte de livro, mas estava tudo escuro, eis que peguei um livro ao acaso com o intuito de falar "marquito, tó, leia esse livro", pra ele não ir embora. Acontece que o livro era um livro científico que chamava The Story of Ergot". Isso mesmo, era um livro com todas as informações possíveis sobre o fungo do centeio do qual Santificado Seja Vosso Nome Albert Hoffman trabalhando com ele, sintetizou o LSD, e claro, falava disso lá. Viva a sincronicidade. Mas eu dei uma olhada no livro e descobri o mais interessante, até a publicação do livro, que era mais ou menos recente, os pesquisadores não tinham achado nem como e nem porque o Ergot produz as substâncias que ele produz. Claro, pesquisadores engodo jamais poderão entender tal coisa.
17.8.05 :::
Almas Perfumadas
(Carlos Drummond de Andrade)
Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta.
De sol quando acorda.
De flor quando ri.
Ao lado delas, a gente se sente
no balanço de uma rede
que dança gostoso numa tarde grande,
sem relógio e sem agenda.
Ao lado delas, a gente se sente
comendo pipoca na praça.
Lambuzando o queixo de sorvete.
Melando os dedos com algodão doce
da cor mais doce que tem pra escolher.
O tempo é outro.
E a vida fica com a cara que ela tem de verdade,
mas que a gente desaprende de ver.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus.
De banho de mar quando a água
é quente e o céu é azul.
Ao lado delas, a gente sabe
que os anjos existem e
que alguns são invisíveis.
Ao lado delas, a gente
se sente chegando em casa
e trocando o salto pelo chinelo.
Sonhando a maior tolice do mundo com o
gozo de quem não liga pra isso.
Ao lado delas, pode ser abril, mas parece
manhã de Natal do tempo em que
a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.
Tem gente que tem cheiro das estrelas
que Deus acendeu no céu e daquelas
que conseguimos acender na Terra.
Ao lado delas, a gente não acha que
o amor é possível, a gente tem certeza.
Ao lado delas, a gente se sente
visitando um lugar feito de alegria.
Recebendo um buquê de carinhos.
Abraçando um filhote de urso panda.
Tocando com os olhos os olhos da paz.
Ao lado delas, saboreamos a delícia
do toque suave que sua presença sopra
no nosso coração.
Tem gente q tem cheiro de cafuné sem pressa.
Do brinquedo que a gente não largava.
Do acalanto que o silêncio canta.
De passeio no jardim.
Ao lado delas, a gente percebe que
a sensualidade é um perfume
que vem de dentro e
que a atração que realmente nos move
não passa só pelo corpo.
Corre em outras veias.
Pulsa em outro lugar.
Ao lado delas, a gente lembra que no
instante em que rimos, Deus está conosco,
juntinho ao nosso lado.
E a gente ri grande que nem menino arteiro.
Tem gente como você que nem percebe como tem a alma Perfumada!
E que esse perfume é dom de Deus.